terça-feira, 25 de outubro de 2011

Das aspirações de outro plano



A vida é como um instrumento
   que a gente aprende a tocar de ouvido,
                             e DEUS é quem dá o tom...

                 
                                              Zeca Alves.

sábado, 8 de outubro de 2011

Este é o canto que minh'alma implora.

  Não faz muito que postei um texto com o título "DAS REFLEXÕES DE UM ANDEJO", comentando sobre uma obra que traz o que há de mais terrunho e consistente dentro do nativismo, algo que revela na íntegra o real significado das palavras: Nativo, nativista e nativismo. E faço questão de dividir com os amigos este abençoado regalo que DEUS enviou ao nosso povo na forma exata dos versos de Eron Vaz Mattos, na voz de Xirú Antunes, e nos dedos de Silvério Barcelos.
 
Acessem o link abaixo, voltem suas almas ao silêncio, e absorvam o estado de espírito da minha terra, minha gente, minha querência, e saibam que minhas inquietudes não se estancam, mas tenho a certeza de não estar sozinho, quando ouço ou leio, cada palavra escrita, dita ou recitada nesta obra incontestável intitulada MEU CANTO, Poemeto de campo.                                                         

 http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=9mqZGbKp81k

                                        Zeca Alves.   Um Saludo! Tchau e gracias!
                                                   

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Do caminho percorrido

         Minha alma ronda o silêncio que aos poucos abre caminho pras reflexões, e o mate amargo, parceiro das madrugadas e dos finais de tarde, mais uma vez adoça seu gosto enquanto refaço os dias, revejo o que tenho feito, e procuro algo que talvez faça com que eu me sinta um pouco mais útil, já que nem sempre o mínimo que faço é pouco e nem sempre o máximo é suficiente.
           De repente, essa tradição secular que herdamos dos índios Guaranis, me remete ao pensamento, questionamentos que, por costumeiros, me levam a refletir sobre o verdadeiro significado da palavra e o sentido que damos a ela.
            O mate amargo ou chimarrão, como prefira, aos meus olhos, vai muito além de simbolismo e representação, é a mais pura tradição mesmo; pois, faz parte de uma série de costumes passados de geração em geração pelo nosso povo e, é nele que vejo a mais nobre das heranças que se tem conhecimento até então. Herança deixada pelos verdadeiros donos desta terra (os índios Guaranis), que em sua xucra sabedoria descobriram bem mais que uma simples bebida; e não só descobriram como, passaram adiante uma infusão capaz de aliviar a alma e redobrar as energias para que o dia por mais exaustivo, seja encarado com vigor, e bem no fim, sirva novamente como recompensa pra quem volta “pras casas” no findar da lida, e sinta-se renovado já no sorver o primeiro gole de uma seiva que relembra o gosto real da vida, na essência mais natural e mais próxima de tudo aquilo que nos deu a origem; é o gosto nativo do pago em que nascemos, crescemos e aprendemos a amar e respeitar desde os primeiros passos. E por mais incrível que possa parecer, é um dos costumes que sofre modificações até hoje e que embora modificado, jamais foi motivo pra indiferença, entre um e outro grupo, que pelas afinidades e pelas características de cada região do estado, acabam vez por outra segregando valores, mesmo sem querer.O fato é que o mate jamais serviu como veículo para olhares indiferentes entre os que fazem parte de uma mesma cultura.
              Ante os fatos, é inegável que entre as discussões sobre tradicionalismo, que tradicionalistas em justa causa levantam, não entra em questão o mate (chimarrão), o formato da cuia, da bomba, a garrafa térmica, enfim... enquanto que a bombacha, o lenço, o chapéu, e tantos outros artigos de usos e costumes são alvo dessas discussões, e acabam no fim das contas segregando valores, entra ano e passa ano. Bueno... não vem ao caso.
               O fato é que lhes garanto que, ao de redor do braseiro, o mundo da minha gente gira em torno da roda de mate, em torno do mate, porque ele é peça fundamental no princípio da educação dos que tem ou tiveram o privilégio de crescer e passar a infância no convívio dos galpões. Por favor, me corrijam se eu estiver errado:
                Lembro-me ainda de ter sido um guri privilegiado por ter nascido no final de uma época em que os mais velhos tinham total liberdade para mandar (no bom sentido) e mostrar o caminho a seu modo para os mais novos; Deus o livre! Se naquele tempo um guri se metesse na conversa dos mais velhos, ou se atrevesse a pedir um mate, o respeito imperava tanto quanto a vergonha na cara; é bem verdade que guri é guri, e não podia ser diferente, sempre se esperava a hora da sesta, ou de saírem todos pra o campo pra aprontar alguma às escondidas. Volta e meia entre uma arte e outra, conforme fui crescendo, dentro de mim aumentava ainda mais aquela vontade de ser mais velho, de poder opinar, de me tornar um homem dos arreios, enfim...
Vez por outra, quando não era permitido que a gurizada fosse pra o campo para aprender as volteadas, não tinha lugar mais certo para estar que o galpão, lá o mate dos campeiros ficava recostado muitas vezes, quando alguém por aficionado no mate, sorvia o gosto nativo da erva até o último minuto, antes de encilhar e ir pra o campo, principalmente depois do almoço, quando o mate por suas propriedades funciona como digestivo.
               Vem daí o motivo das tantas conclusões que tiro sobre a palavra tradição; hoje vivendo em outros tempos, tenho o privilégio de matear com meu filho, que embora com apenas quatro anos de idade bem sabe o gosto que isso tem, e é este mesmo mate que me leva de volta ao passado, que também nos aproxima cada vez mais um do outro; tanto eu, quanto minha prenda, nosso filho, e da mesma maneira que aproxima o campeiro do maturrango, o patrão do peão, o rico do pobre, o moço do velho, o rural do povoeiro, etc...
               Eis então a herança que sintetiza num simples avio o significado da palavra tradição, por isso me basto em bem dizer e preservar o passado, e pouco me importam os avanços e atropelos inevitáveis do tempo, que não me dizem nada, desde que minha gente seja respeitada e tratada como merece, sem me tornar mais ou menos importante sendo ou não tradicionalista, pois peço a DEUS sabedoria para seguir sempre além do caminho percorrido...


Tradição: 1.Ato de transmitir ou entregar. 2.Comunicação ou transmissão de notícias, composições literárias, doutrinas, ritos, costumes, feita de pais para filhos no decorrer dos tempos ao sucederem-se as gerações. 3.Notícia de um feito antigo transmitida desse modo. 4.Doutrinas, costumes, etc., conservados num povo por transmissão de pais para filhos. 5.Conjunto de usos, idéias e valores morais transmitidos de geração em geração. 6.Memória, recordação, símbolo.

Tradicionalista: 1.Pertencente ou relativo ao tradicionalismo ou à tradição.
2.pej. Retardado no tempo. sm+f 1.Pessoa partidária do tradicionalismo. 2. Pessoa que preza muito as tradições.




                                                                        Zeca Alves
                                                       30 de setembro de 2011 - primavera
                                                     Num breve exílio povoeiro - Pelotas - RS

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Pelos rumos de onde venho

                   O velho parceiro de idas e vindas ainda espuma a seu modo enquanto palmeio a cuia sorvendo o gosto mais nativo que se pode encontrar numa infusão. Mais uma vez o velho costume de rever a vida leva meu ser a refletir sobre o caminho percorrido, enquanto a alma, em vigília, teima em rondar a existência, onde sigo rumo ao desconhecido. As reflexões vem povoar meu silêncio que de tanto em tanto é quebrado pelo ronco do mate...
          Desta vez, num breve exílio povoeiro, minha inquietude fala a respeito do que se têm pôr nativo, nativista, nativismo, e o que realmente significam tais palavras.
           Ás vezes se criam mitos, estórias, e até mesmo movimentos tidos como se a palavra que dá título aos mesmos fosse tomada ao “pé da letra”; motivo este que me parece deixar claro o porquê das tendências e formações errôneas de opinião, pois uma má informação é, do meu ponto de vista, algo pior que informação nenhuma. Que rumo um pai daria aos seus filhos sendo que sempre que eles procurassem o conhecimento sobre algo que gostam, ou buscam, ou que diga respeito ao lugar onde nasceram ou vivem, e ele lhes passasse uma informação errada?
         Éh! Mais uma vez o silêncio que sempre me diz tanto, vem em forma de pensamento auxiliar nas minhas reflexões. 
        Visitando uns “recuerdos” volto ao tempo em que dormia no costado de um rádio toca fitas, para gravar canções terrunhas, músicas que sempre diziam algo condizente com o lugar que me deu a origem, que formou meu caráter, porque sem meias verdades, exaltavam minha terra, minha gente, minha querência, e por isso bastavam pra que meu orgulho de ser de onde sou, e que me faz ser quem sou, me enchesse de coragem e brio. Coragem que hoje tenho para opinar em defesa do que realmente é nosso. Naquela época, entre tantos que faziam parte do movimento musical gaúcho, lembro de um nome, que pra mim era e segue sendo uma das referências perfeitas para os que querem de fato cultivar o que é produzido aqui, para ser consumido aqui.
           Num canto simples Thelmo de Lima Freitas, com seus versos e melodias simples, puras e verdadeiras, nos mostra ainda hoje o que realmente é a música nativista do Rio Grande do Sul,
uma musicalidade ímpar, onde o autor jamais precisou rebusque de musicalidade alheia. Milongas, vaneiras, mazurcas, e tantos outros ritmos, divinamente compostos, sem que pra isso tenha necessidade de incluir em suas canções fragmentos de bluz, jazz, bossa nova, enfim... porque suas canções se bastam em cantar verdades pra os que de fato sabem o que ele diz.
            Engraçado, mesmo fazendo todas essas observações, percebo que a musicalidade no chamado movimento dos festivais nativistas, hoje em dia, por mais terrunha, por mais verdadeira que seja, menos é aceita pelos que se julgam aptos a fazer parte de tal movimento, e geralmente por simples e verdadeira basta pra ser ignorada. Talvez porque justamente os ditos virtuoses, que em sua musicalidade ímpar, acabam se vislumbrando com a sonoridade de outros povos, sem perceber se deixam levar pela ilusão de cantar pra o mundo, e acabam esquecendo da cantar suas próprias verdades, esquecendo de cantar pra o povo nativo do lugar de onde vieram, abrindo mão de um compromisso cultural que poderia lhes dar em troca muito mais reconhecimento do que conseguem, mesmo que o esforço seja redobrado e pouco recompensado. Daí vale a pena relembrar um verso de Thelmo de Lima Freitas:

                “Quem vendeu tesouras na ilusão povoeira
                   Volte pra fronteira para se encontrar”...

                Mas, o que fazer? O livre arbítrio foi dado aos seres humanos pra que cada um escolhesse o seu caminho; aqui, no mais profundo do meu ser, eu tenho a certeza de seguir pelo mesmo rumo de onde venho, pois quem busca atalhos na vida desvia o próprio caminho.
                Se versejador, serei sempre um versejador nativo; se integrante de algum movimento cultural, serei de um movimento realmente nativista gaúcho; se peleador, hei de pelear para que meus filhos conheçam o verdadeiro nativismo gaúcho.
                
               É certo que críticas virão, que olhares e conceitos sobre minha pessoa mudarão, mas sou defensor das minhas verdades, das verdades da minha gente, e saibam todos que meus argumentos são baseados no real significado das palavras.
                  
              Ah! E saibam os senhores que eu não mudo, pois nunca mudei, serei sempre o mesmo pra que todos reconheçam de longe. Graças a DEUS!                

Nativo: 1.natural, não adquirido, original. 2.Desafetado, desartificioso, singelo. 3. Natal,natalício.  4.próprio do lugar de nascimento. 5.Pátrio, vernáculo. 6.Nacional, não estrangeiro. 7. Miner Diz-se dos metais e metalóides encontrados livremente na natureza. 8. Reg (centro sul) Diz-se de pasto natural, de campo.

Nativista: Patriota ao extremo, que não cultiva o estrangeirismo.

Nativismo: s.m. Filosofia. Teoria segundo a qual o espaço e o tempo são dados nas próprias sensações, não são adquiridos por experiência.


      Gracias a todos que compreendem as minhas preocupações, e todos os que abraçam literalmente a mesma causa.
      
           

                                                                        Zeca Alves
                                                     28 de setembro de 2011 - Primavera .        
                                                  Num breve exilio povoeiro  - Pelotas – RS.
                                                           Das 19:30 ás 21:00 da noite. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Das reflexões de um andejo

              O gosto do mate ainda é o mesmo das tantas madrugadas que vou somando neste destino de peão; os meus silêncios ainda me levam a refletir sobre o mundo á minha volta, sobre minha terra, minha gente, o rumo que escolhi, e o caminho que pretendo mostrar aos meus filhos.
           Mais um mate...
Como de costume o rádio ainda manda notícias da cidade, fala sobre o tempo e os fatos, enquanto aqui, no meu interior, me encontro mirando longe,  ao mesmo  tempo que  percebo a ausência  cada vez mais constante daquilo que pra mim é indispensável para que as origens de nosso povo não sejam esquecidas.
             Outro mate...
O rádio toca uma canção das tantas que não dizem nada á respeito de onde venho; emissora esta que se soma a tantas outras  que se dizem  comprometidas com seus ouvintes;mas que esquecem o compromisso  com a origem, a cultura, e  pouco  se importam com isso, mas sim, com o rumo por onde as tendências falam mais alto, e por conseguinte se comprometem única e tão  somente com a  importância em dinheiro que a audiência pode lhes dar.
             E mais outro mate...  
 Como toda santa madrugada , aqui  me encontro questionando  a mim mesmo  sobre o que quero pra mim, e pra os meus. De repente, pelo costume de rever meus conceitos, minhas atitudes, que na condição de ser humano não me livram de cometer erros, me ponho a escutar um cd maravilhoso, uma relíquia que guardo no meio de um pequeno acervo que tenho,  pequeno em números, porque  o conteúdo é  inestimável.
             Mais um mate...
Agora sim, ouvindo este cd (Meu Canto, Poemeto de campo), sinto-me como um filho que andava perdido e voltou a se encontrar pra ouvir as palavras do pai; faço minhas as palavras do poeta Gujo Teixeira:
“Eu visito meus “recuerdos” e diviso as distâncias, e ainda busco os meus limites, mesmo assim”...
              Bombeando o fogo onde me aqueço , enquanto a chuva lá fora goteja das telhas pra o chão , volto a recordar de um  equívoco, quando por errante , e pelo jeito que tenho de  dizer aquilo que penso, por sincero, acabei opinando sobre algo até então desconhecido por mim, e na minha ignorância, pensava eu, estar coberto de razão.
            Outro mate...
Benza Deus o conteúdo destes versos que no momento me dizem tudo,  ao mesmo tempo que também sinto-me diante do autor, um mestre, um sábio filósofo e guardião de tudo aquilo que diz respeito as minhas origens. Ao tempo que sorvo um mate atrás do outro e escrevo estas linhas, me sinto envergonhado pelo que um dia comentei com alguns amigos, mesmo sem ter o conhecimento que pensei que tinha sobre a obra de tal Poeta; percebo que no momento iluminado em que  o mesmo escreveu estes versos, as dores de sua alma, eram as mesmas que me inquietam até então.
              Uma virada no mate...
Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, hoje sei exatamente o que dizem os poetas Lisandro Amaral,  Adriano Alves, Fabio Maciel , Sérgio Carvalho Pereira,Xirú Antunes (que ao lado de Silvério Barcelos deram este regalo aos que amam esta querência ), e a referência maior do meu povo na atualidade, Luiz Marenco, quando mencionam o nome respeitoso pela condição moral  e pela “sustância” espiritual que se traduz nos versos de Eron Vaz Mattos.
              Uma parada no mate, mais um pau de lenha no fogo...
Depois de muitas alegrias, e também desgostos no caminho cultural que pensei que fosse na sua grande maioria comprometido com as raízes da minha gente,  percebo que há sim, pelo menos uma meia dúzia de esteios, cernes vivos que fazem valer á pena as minhas reflexões.
Agora ,faço minhas as palavras do Poeta Eron Vaz Mattos: 


“Aqui,repartimos as dores em silêncio, pois a alma quando está ferida, sabe decifrar o idioma do coração.”

               É hora de me arrimar ao galpão, voltear a cavalhada, encilhar, e cumprir o compromisso de onde tiro o sustento.
                Levo de tiro pra o campo uma pergunta que me faço, e que me inquieta já faz muito tempo:
               Seria um meio de sobrevivência o motivo para que a cultura fosse posta em segundo plano, tendo as coisas que nos são mais valiosas , sido  desvirtuadas,  esquecidas em gavetas alheias, ou associadas a uma linguagem comercial e  tendenciosa, desprovida  de identidade e autenticidade?
               Desculpem aqueles que , por suas razões, discordam, mas ainda guardo na alma e no coração a gratidão pelo lugar que me deu origem,  a terra sagrada onde piso ,e por isso respeito; se as coisas andam perdendo o rumo, talvez esteja na hora de pensarmos  melhor sobre os valores que a existência pode ofertar aos que sabem que alma e coração não tem preço;
Aliás! Hoje, na data maior do povo gaúcho, são raras as emissoras que ainda tocam a autêntica e verdadeira música nativista, talvez por que a produção da mesma esteja atirada ao descaso pela grande maioria dos compositores que ainda se dizem nativistas, infelizmente.
                                           
Caro Poeta Eron Vaz Mattos!
                Também sinto que:
                                      
                                    “Empobreceu o meu canto,
                                     Já não é mais o que era...”
 
                                            
                                             Zeca Alves
                                    Fazenda Joaquim Oliveira 
                            Taim - 4º distrito do Rio Grande - RS.
                  20 de setembro de 2011. Das 5:15 ás 6:15 da manhã.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Que assim seja...



Quando o silêncio vai pelo caminho, buscando a volta que a estrada tem,
Levo comigo as penas que me tocam, e tiro delas o que me convém;
Mirando longe, vou livrando as pedras, nesse destino que se fez regalo,
Pois, hoje sei que, a cruz que se carrega não é motivo pra estropiar cavalo.

 
Levei um tempo pra entender a vida, na direção daquilo que procuro,
E perceber que a luz mostra o sentido, para guiar quem vê melhor no escuro;
Talvez, por isso, encilho pingos "buenos", e não sofreno, por saber que assim...
Evito a dor primeira de cortá-los, e  a do remorso que ia ser pra mim.

 
Se tenho sede de uma boa aguada, e de uma sombra pra desencilhar,
A própria sede serve de motivo, pra que eu procure onde descansar;
Digo, em verdade, que os meus cavalos, são a razão deste pensar, também,
Porque, se levo algum pelo cabresto, tem um disposto a me levar além...

 
A cada escolha que me dita um rumo, se estende o rastro pelo corredor,
Com fé na alma, vejo as conseqüências, e se me fiz, ou não, merecedor;
Por ter saído em busca de respostas, a vida, as vezes, cobra mais empenho,
Daí, reviso minhas atitudes, pra evoluir nessa missão que tenho.

 
-É mais feliz quem sabe ver o mundo, com olhos claros, muito além daqui,
 E recomeça reparando os erros, quando descobre a humildade em si;
 Nem sempre o mínimo que faço é pouco, nem sempre o máximo é suficiente,
 Só que meu ser tende a cuidar com jeito, do que preciso pra seguir em frente.

 
Notei então que, nada é por acaso, tão logo, a sina me afastou dos meus,
E, que a lonjura que nos faz distante, nos aproxima ainda mais de DEUS.
Mas, se tiver de ser, que assim seja; sigo adiante no meu estradear,
Conforme posso, num tranco largo, sou dos que sabem onde quer chegar.

 
 
                                                                                                Zeca Alves.


sábado, 7 de maio de 2011

Partida, ausência e saudade





A Flor encilhou ausência vendo o mundo da janela,
Aquerenciou seu olhar, na imagem da cancela;
O domador, por ofício, guiando seu próprio tino,
Levou saudades de tiro, palmilhando seu destino.

    Numa “coplita” extraviada, a estrada botou sentido,
     E acolherou sentimentos, firmando ao nó no vestido;
      Um rancho, dois corações, e o horizonte estendido,
     Se tornaram esperanças, após o mate do estribo.

-Quem nunca encilhou ausência num mate madrugador?
-Quem nunca levou saudade de tiro no corredor?

        Reculutando o sustento, sem alentos pra distância,
        O tempo fazia escolta, domando potros, de estâncias;
      Ao encilhar um reiúno, no destino de quem doma,
     Levou saudades de tiro, nos ringidos da carona.

Uma lágrima, no rosto, regava o sonho da flor,
Que, na imagem da partida refletia um grande amor...
Na incerteza do destino, DEUS levou o domador,
Desde então, encilha ausência, num mate madrugador.
                                                                
                                                              Zeca Alves.

Estronca





Na cabeceira se encontra
A estronca bem falquejada,
Pra garantia “dos pila”
No serviço de empreitada,
Firmando junto ao rabicho
As “sete corda espichada”.


                              “Ta” no tenteio do arame
                                A manha do alambrador,
                                Que vai “baxando as paleta”
                                Judiado do socador...
                                E traz as mãos calejadas,
                                Templado a frio e calor.


No rigor das estações
As cercas vão se estendendo,
No inverno, a geada castiga,
No verão, o sol, ardendo;
Cem metros feitos por dia,
Serviço bruto rendendo.


                            Em cada vão dos “moirões”
                            Cinco tramas atilhadas,
                            Arame liso e farpado
                            Na divisão de invernadas,
                            Capricho, visto de longe
                            Na cerca bem alinhada.


O principal nisso tudo,
 Muitos custam “a se dar conta”,
Traz madrugadas consigo,
Trabalha de ponta a ponta;
Escorando a lida bruta
O alambrador é uma estronca.

                                                           Zeca Alves.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Passando um tento

                             

Deitado na porta de um rancho estancieiro
Um cachorro ovelheiro, espreguiça, com sono;
O tempo que passa, ajustou de caseiros
Em outra estância, o Coleira e seu dono.

 Na sombra espichada, beirando a cozinha,
 Boceja e se aninha, encostado na bota
 De quem por vaqueano enxergou que a velhice
 Traria outro encargo, e o serviço de volta.

Não sai mais pro campo na sombra do pingo,
Nem quando um campeiro, assoviando convida...
Empurra a cuscada mais nova e retorna
Que o tempo lhe cobra os trompassos da vida.

O tento ficou bem passado na trança
 Das braças de um laço chamado amizade,
 Que livra os tirões e se estende por conta,
 Firmando na cincha o peso da idade.

Quem, de outro serviço, largou-lhes por velhos,
As vezes visita pra ver como estão,
Então o Coleira o recebe com festa,
E faz da humildade uma grande lição.

 Assim o cachorro Coleira e seu dono
 Estão n’outra estância, e até mais feliz...
 Se medem palavras em tom de respeito,
 Sinal de quem pensa naquilo que diz.

                                                               Zeca Alves & Fabio Prates.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Décima de um gaudério





Um semblante de primavera,
Misto de flores e espinhos...
Se estendeu por toda estrada,
Projetou sombra e aguada
Por d’onde cruzo caminhos;
Fui dando espalda pro rancho,
Cruzei pra lá da cancela,
Sentei as garras no pingo,
Busquei a volta do estribo
C’oa mão canhota na rédea.



                              Na direção do horizonte
                              Meu pingo trocava orelha,
                              E a espora, dava o comando
                              Pra ele sair tranqueando,,
                              Riscando-lhe a barrigueira;
                              E o rancho, que eu mesmo fiz,
                              Nobre, e de simples valores,
                              Ganhou ar de despedida,
                              Virou tapera dormida
                              Aos olhos dos cruzadores.



Por gaudério, hoje, distante,
Mateio á sombra dos móleos,
O pingo livre da cincha,
Atado a soga, relincha,
Vejo a saudade em seus olhos;
Sai pra amansar distância
C’oa alma de olhar profundo,
Pois, nasci de alma andeja,
E desde piá, com certeza,
Sonhava andar pelo mundo.

                                   Mas, se por acaso, o pingo
                                   Relinchar com insistência,
                                   Desato a soga, que, o tranca,
                                   E dou-lhe um tapa na anca...
                                   Pra que retorne a querência;
                                   E sigo cruzando estrada,
                                   Porque gaudério sou eu,
                                   Dou um jeito “nos arreio”,
                                   A maior riqueza que tenho
                                   É esse mundo de DEUS.

                                                                                                Zeca Alves.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O toso



                                             
Topete e pega mão, largos,
Aos cuidados do campeiro,
Pingos bem apresentados,
Orgulho p’ra o cabanheiro;
Na mais gaúcha vivência,
Cada toso “hay” um segredo.

                     Cada cavalo,é um cavalo,
                     Seu biótipo, e estilo...
                     Uns de “pescocito” leve
                     Pra um toso de cogotilho,
                     Atraque o ponta de lança
                     Se for pescoço invertido.

“Ta” na autenticidade
  Que vem de tempos atrás,
  Conservado nas estâncias,
  O toso de capataz,
  Que ao renovar a tropilha,
  Ensina como se faz.

                     “Vamo” metendo a tesoura,
                      Emparelhando os dois lados,
                      Se o pingo for meio termo
                      Deixe um “poquito” volteado;
                      Quanto mais baixo, melhor,
                      Se o pescoço é carregado.

Cerda fina, cerda grossa,
Éguas de encilha, e de cria,
E a cavalhada do pampa,
Ao largo das sesmarias
Mostra, no toso, o capricho
De xucra sabedoria.

                                                     Zeca Alves.

sábado, 26 de março de 2011

A Vida em quatro elementos

       (AO MEU FILHO, JOÃO CÂNDIDO)



 Ganhando o céu da querência, pelo chamado de DEUS...
 Não serei mais um extinto, junto à memória dos meus;
 Serei vida, em outras formas, pelas mãos sábias do tempo,
 Renascendo a cada dia, no campo, em quatro elementos.

 Serei o vento em remanso pelas tardes de verão,
 Sombra copada p’ra os mates, projetada sobre o chão;
 A terra, em nuvens de poeira, rebojando num rodeio
 Ou, nas patas de um cavalo. “escramuçando” no freio.

Pelas manhãs de céu limpo, voltarei, no sol nascente,
 Fonte de luz no horizonte, para aquecer minha gente;
 Pelas nuvens carregadas, nas manhãs de céu nublado,
 Voltarei na água da chuva, matando a sede do pago.

 No calor de um fogo grande, voltarei ao pensamento...
 Sendo um rastro na consciência do meu próprio seguimento;
 DEUS permita que, meu filho, com razões de prosseguir,
 Sinta seu pai sempre vivo, nos rumos, por onde ir.

  Serei o vento na sombra, lhe provocando arrepios;
  Fogo grande, água p’ra os mates com gosto de campo e rio.
  Serei terra, em suas mãos, pra garantir o sustento...
  Serei eu, eternamente, vivendo em quatro elementos.

 Zeca Alves.

quarta-feira, 9 de março de 2011

ROMANCE DO ANDARILHO... (Primeira passagem)


26º Capítulo


Seguindo adiante, agora de a “pézito no más”, com as garras emaladas, o andarilho ia tentando encontrar um jeito de dar um destino ao que lhe era útil quando andava de a cavalo, tempo adentro e mundo afora. Foi quando avistou um “bolichito” de fronteira entreposto no arrabalde em que cruzava quando fez a doação do tordilho entroncado á um homem que precisa dele pra pelear em prol da sobrevivência; pois bem, o andarilho pensou consigo: “é aqui que vou me livrar do peso destas garras que não me são mais tão úteis, numa dessas passo nos troco, ou quem sabe deixo empenhadas pra pegar uns vícios quando estiver de cruzada”.
Chegando em frente ao bolicho, largou as garras no chão, logo que cruzou a cancela e prendeu um “saludo” e “buenas tardes” ao bolicheiro... De vereda o dono do estabelecimento lhe “saludou” também, e sem demora já foi logo perguntando o que o andarilho queria. O andarilho por sua vez saiu buscando a volta da prosa pra só depois, no desenrolar do assunto tentar negociar com o bolicheiro; um mais vaqueano que o outro.
Quando o andarilho contou-lhe sobre o motivo pelo qual andava de a pé, com as garras emaladas, logo o bolicheiro desconfiou, por certo que pela expressão do rosto pensava que era história pra boi dormir, pois “quando a esmola é demais todo santo desconfia”; como também não era tão santo assim, logo o instinto lhe atiçava o pensamento, estavam agora, frente a frente, dois vaqueanos, um por andar pelo mundo aprendendo, o outro por calaveira, sim senhor!
A negociação entre os dois pegou a se estender entre um argumento e outro; o bolicheiro ao revisar as garras logo viu que se tratavam de cordas simples, porém fortes e bem arrematadas, os baixeiros sim eram “surraditos” e tinham as pontas esfiapadas, os pelegos eram duas garrinhas, meia lã, já o basto, o basto era de respeito, feitio artesanal, estriveiras bem reforçadas, basteiras bem enchidas, todo ele de couro cru; logo o comerciante foi crescendo o olho e tentando tirar o máximo de vantagem, mas mesmo precisando livrar-se do peso pra seguir andejando o andarilho bem sabia do valor de seus aperos, bem por isso, além de garantir os vícios por um bom tempo queria apenas o que eles valiam, nada mais, nem menos.
Depois de um bom tempo conseguiu convencer e chegar a um acordo com o bolicheiro que lhe deu um tanto em dinheiro, e outro tanto em fumo, palha e fiambre.
Caia a boca da noite, o andarilho “saludou” o bolicheiro e voltou em direção ao “ranchito” d’onde morava o homem a quem deu o tordilho entroncado, e sua família. Quando a cachorrada bateu, logo ouviu uma voz vinda de dentro do rancho lhe gritar: “Passe pra diante”! Sacou a “boinita” surrada e pedindo licença adentrou “despacito”, meio encabulado, com a mala de garupa sobre o ombro; nisso o dono do rancho logo fez questão de apresentá-lo a sua família, porque aquela humilde figura era o homem de atitudes nobres que havia tentado amenizar suas penas sem pedir nada em troca. Apresentação feita, o homem logo perguntou ao andarilho no que lhe poderia se útil, então foi que o andarilho pediu-lhe um cantinho pra passar a noite e poder ressojar pra só no outro dia seguir no rumo da estrada...pouso concebido, óbviamente.
Na madrugada seguinte, o andarilho levantou-se pé por pé pra não fazer barulho, acomodou um mate a capricho com os avios que trazia na mala e saiu pra matear do lado de fora; foram um, dois, três, enfim, vários mates até tomar o do estrivo, daí levantou-se do cepo onde havia sentado para matear, tirou da mala o fiambre que tinha negociado com o bolicheiro, e colocou sobre a mesa da cozinha. Agora era seguir a cruzar caminhos, solito, e DEUS...
Quando todos se levantaram, já não havia mais nem rastro do andarilho.
Mais tarde correu o comentário nos arredores do arrabalde, sobre um homem sábio, e generoso que parecia ter surgido do nada, e sumiu num piscar de olhos.

FIM.