quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ROMANCE DO ANDARILHO... (Primeira passagem)



21º Capítulo


O andarilho seguia num rumo de ida corredor afora, deixando pra trás um compromisso firmado junto ao couro que ajudou a estaquear; o seu cavalo ainda cismado teimava em andar de lombo duro sob as garras; depois de léguas vencidas no compasso dos cascos, resolveu bolear a perna e afrouxar a cincha para que o cavalo desse uma ressojada, e daí sim seguir a jornada com destino incerto...
Não se sabe se por coincidência, ou se porque nada é por acaso, que o andarilho parou exatamente no mesmo lugar em que havia parado da última vez que estradeava por aquele rincão, e lembrou-se de uma passagem com um –índio carrancudo- que estropiou um tordilho vinagre entroncado que lhe carregava até levar um laçasso e entregar-se de vez. Pois bem, apeou do cavalo, tirou-lhe as garras na sombra dos “móleos” e o levou até a sanga pra beber água e lhe dar um banho , voltou até o lugar onde deixou as garras e deu de mão numa bolsa de estopa que carregava, pra fazer uma maneia e garantir que por ventura enquanto se recostasse um pouco o cavalo não disparasse lhe deixando de a pé naquele fundão de corredor. Tudo listo. Recostado nos arreios pra uma sesta ligeira, de repente o andarilho ouviu o “refolêgo” de um cavalo que vinha se aproximando entre uma bocada e outra no verde dos pastos. Ergueu a cabeça pra certificar-se que animal era, e surpreendentemente confirmou que era o tal tordilho vinagre que n’outra volteada foi deixado pra trás pelo tal - índio carrancudo-.
Por essas coisas que somente DEUS pode explicar, o tordilho foi se aproximando cada vez mais do andarilho, parecia ter lhe reconhecido de longe, como de fato era mesmo. A sesta acabou sendo deixada de lado quando a sintonia entre homem e cavalo levou um de encontro ao outro.
Já no primeiro vistaço, o andarilho percebeu que os cascos do tordilho estavam quebrados e pedindo uma “aparadita” de facão, pelo visto desde que foi deixado por lá ninguém mais tinha lhe dado algum tipo de atenção. Bueno... cortou-lhe os cascos, e com um pedaço de piola que trazia na mala de garupa fez um “buçalzito” de improviso; passado mais ou menos uma hora e pico de descanso, pegou seu cavalo que pastava maneado, apertou a cincha bem no osso do peito e alçou a perna para seguir no rumo que havia, agora com outro de tiro.
Mais adiante, depois de despachar um bom tanto de terreno ao “tranquito no más”,
ia adentrando um povoado distante d’onde pretendia arrumar um pouso, e não deu outra...bateu palmas em frente a um rancho de um chacreiro que sempre lhe garantia um canto pra descansar; era um senhor aposentado que tinha por lá, em sua chacrinha, uma “pontita” de ovelhas pra consumo, mais duas, três vacas mansas. Quando lhe recebeu num “saludo” cordial, o senhor este disse ao andarilho que desencilhasse no lugar de sempre e se chegasse pro galpão pra tomar um mate e se recompor das andanças.
Depois de desencilhar e soltar os cavalos no piquete que lhe foi cedido por aquela noite, o andarilho rumou pro galpão onde o chacreiro lhe esperava de mate pronto pra uma prosa amiga; Conversa vai, conversa vem, lá pelas cansadas o chacreiro aproveitou que falavam sobre cavalos e perguntou-lhe o que queria com aquele matungo velho sotreta que trazia de tiro? Sem demora o andarilho lhe contou toda a história e lhe disse o que pensava sobre tudo, justificando porquê andava com aquele pobre animal no costado; de repente, sem mais questionar o proprietário da chácara pegou a desfazer não só daquele cavalo velho que o andarilho pegou pra cuidar, mas de outro que ele tinha por lá, e que apesar de velho não lhe negava o estribo jamais, pois pela boa índole e pela saúde que trazia estava sempre pronto quando lhe precisavam, fosse pra ir no bolicho, pra encerrar as vacas, ou até mesmo pro andar das crianças que vinham da cidade passar os finais de semana. Então , o andarilho por respeito ao livre arbítrio calou-se e elevou o pensamento com a seguinte reflexão:

- DEUS perdoe a todos aqueles que não percebendo condenam algo, ou alguém pelo seu tempo de vida, porque a velhice quando mal vista pode tornar-se um martírio; bem sabem os que envelheceram o quanto a idade soma através da maturidade que traz como conseqüência a experiência no sentido mais amplo da palavra.

Passados uns minutos em silêncio sorvendo o mate e olhando a vida de longe enquanto pensativos, cada um com suas reflexões, depois de roncar o último mate e recostá-lo o chacreiro providenciou a janta. Refeição feita; um “buenas noites” e “até amanhã” foram as últimas palavras naquela noite, véspera de feriado.

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